terça-feira, 27 de outubro de 2009

Dicas de Gramática - Sinclitismo

Sinclitismo


Pronome é a palavra que substitui (ou pode substituir) o nome. Segundo a classificação, o pronome pode ser pessoal, demonstrativo, possessivo, indefinido, relativo e interrogativo. O pronome de tratamento é um pronome pessoal, que é a palavra ou expressão que substitui a terceira pessoa gramatical. Interessa-nos, neste momento, o pronome pessoal, que se define como sendo a palavra que, além de substituir o nome, põe-no em relação a uma pessoa gramatical. O pronome pessoal pode ser, a depender da função sintática que exerce¸ do caso reto ou do caso oblíquo. Os pronomes pessoais do caso reto têm função subjetiva, isto é, têm a função de sujeito. São pronomes pessoais do caso reto: eu, tu, ele/ela, nós, vós e eles/elas. Os pronomes pessoais do caso oblíquo têm a função de complemento verbal. Os oblíquos podem, segundo a acentuação própria, ser classificados em tônicos e átonos (não se deve confundir acento tônico com acento gráfico; o primeiro diz respeito à sílaba que é pronunciada com maior força; o segundo, à representação gráfica da sílaba tônica, ex.: casa é uma palavra tônica, ou seja, ela é acentuada, ela possui acento tônico, localizado na penúltima sílaba; todavia, o acento tônico não é representado pelo acento gráfico; lápis, por sua vez, tem acento tônico, localizado também na penúltima sílaba, representado por um acento gráfico).Toda a palavra átona, ou seja, que não possui acentuação própria, não possui autonomia prosódica. Os pronomes oblíquos átonos não possuem, portanto, autonomia prosódica. Logo, devem vir apoiados no acento do verbo. Como regra geral, tem-se a posposição do oblíquo ao verbo, isto é, os pronomes devem ser enclíticos. As exceções levam às construções proclíticas e mesoclíticas. Há casos em que o verbo perde sua força enclítica, o que faz o pronome ser deslocado para antes do verbo (próclise) ou para o meio dele (mesóclise). Em particular, é interessante como se vê - inclusive em autores consagrados - uma comuníssima, mas errada, colocação do oblíquo: solto entre dois verbos. Ora, se os oblíquos átonos não têm autonomia prosódica, como dissemos no início, não podem vir soltos entre dois verbos, obrigando-os a apoiarem-se no acento de um dos verbos. Destarte, construções como estas são erradas: «está se formando», «vim lhe dizer», «foi me entregar», «tinha se esgotado» etc... Corretamente, escreve-se assim: «está-se formando», «vim-lhe dizer», «foi-me entregar», «mandou-te entregar», «foi-me contando», «tinha-se esgotado»... Exemplos que devem ser seguidos: «Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, ...» (Machado de Assis, Dom Casmurro), «... e redarguiu-lhe sorrindo que não tivesse medo.» (Machado de Assis, O Alienista), «... não pode deixar de ter-se desvanecido, ...» (Joaquim Nabuco, A República é incontestável), «... para conseguir fazer-se ouvir da velha ...» (Júlio Ribeiro, A Carne), «E o facies daquele sertão inóspito vai-se esboçando, lenta e impressionadoramente...»(Euclides da Cunha, Os Sertões), «Ela se abaixava, deixava-se pegar, ...» (Fernando Sabino, O Encontro Marcado)... Exemplos, pois, que não devem ser seguidos: «saber exatamente o que estava se passando em seu país e no resto do mundo» (Paulo Coelho, A Bruxa de Portobello), «Você faz parte, mas não vou lhe contar como, não tem importância.» (João Ubaldo Ribeiro, A Casa dos Budas Ditosos), «Já vem ele ali, Juca, foi se despedir da namorada...» (João Guimarães Rosa, Sagarana), «São momentos em que a "máquina da vida" parece se explicar...» (Arnaldo Jabor, Amor é prosa, sexo é poesia), «No jogo de capoeira de Angola ninguém pode se medir...» (Jorge Amado, Capitães de Areia)...




sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Carminis IX - Herbert Haeckel


Carminis IX
 (Herbert Haeckel)

Fez-se mulher, a amada, em meus braços sedentos. 
Seu corpo, junto ao meu, clamando o amor gentil, 
Entregou-se. Torpor mágico de acalentos, 
No desbrochar da flor virginal, o sutil

Encanto e a descoberta insonte de momentos 
Eternos... Expungido o medo assaz hostil, 
O vínculo sonhado afasta ali os tormentos, 
E o sensual amor toma-a e leva-a ao alcantil...

Espetacularmente harmônica junção, 
Corpo e corpo, alma e alma: uma, e tão-só, sensação, 
A arrebatar o peito, enchendo-o de lirismo.

E no leito sereno, em que a alma se liberta 
Do jugo tenebroso, e à vida se desperta, 
Afasta a solitude e livra-se do abismo!


sábado, 17 de outubro de 2009

Soneto 5 - Herbert Haeckel


Soneto 5
(Herbert Haeckel) 

Brandamente, descansa a pupa na crisálida...
Metamórfica larva, antes ovo, preâmbulo
Do livre voo, por sobre os lises de flor pálida,
Da imago multicor, de longínquo incunábulo!

Já livre, a borboleta, ao escapulir da sólida
Casucha, ganha o céu... Abandona alto o ergástulo...
Em ruflo vigoroso, ela, por demais lépida,
Solta-se, revelando o incomum espetáculo!

Também a alma, em seu claustro, é lá aprisionada,
Como em casulo a pupa está... Se livre voa
A borboleta ao céu, a alma, 'inda acantonada,

Aspira, mui ansiosa, ao voo em liberdade...
E do efêmero corpo, o que assaz a agrilhoa,
Desata-se, feliz, e ganha a Eternidade!


sábado, 3 de outubro de 2009

Pallida Luna - Augusto dos Anjos


Pallida Luna
(Augusto dos Anjos)

És do Passado! Vieste d'alvorada
N'asa dos elfos pela Morte espalma...
Cantas... e eu ouço esta berceuse calma
Da harpa dos mundos ideais no Nada!

Ergue o Missal brilhante de tu'alma,
Mas nessa elevação mistificada,
Vem, que eu te espero, Deusa constelada
Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma!

Venhas e desças, Lua dos Martírios,
Desças, mas venhas pela unção dos lírios.
Visão de Ocaso de enluaradas comas,

Vaso de Unção descido dos espaços,
Para ungirmos nós dois, os nossos paços,
Na tule idealizada dos aromas.



quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Pedro Kilkerry



PEDRO MILITÃO KILKERRY. Poeta simbolista brasileiro. Nasceu em Santo Antônio de Jesus, BA, em 10 de março de 1885. Faleceu, durante uma traqueostomia, em Salvador, BA, em 25 de março de 1917. Filho de um irlandês com uma baiana, Pedro Kilkerry formou-se em Direito pela Faculdade da Bahia. Nunca publicou um livro sequer.

Cérbero 

É, não vens mais aqui... Pois eu te espero,
Gele-me o frio inverno, o sol adusto
Dê-me a afeição de um tronco, a rir, vetusto
- Meu amor a ulular... E é o teu Cérbero!

É, não vens mais aqui... E eu mais te quero,
Vago o vergel, todo o pomar venusto
E a cada fruto de ouro estendo o busto,
Estendo os braços, e o teu seio espero.

Mas como pesa esta lembrança... a volta
Da aléia em flor que em vão, toda, transponho,
E onde te foste, e a cabeleira solta!

Vais corações rompendo em toda a parte!
Virá, um dia... E à porta do meu Sonho
Já Cérbero morreu, para agarrar-te.


terça-feira, 29 de setembro de 2009

A Cartomante - Machado de Assis


Uma pequeníssima homenagem ao maior dos escritores de todos os tempos e de todos os idiomas: Machado de Assis, que fez sua viagem etérea há 101 anos.


A Cartomante
(Machado de Assis)

Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de Novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...
— Errou! Interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muito cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vente e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.
Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita.
Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.
Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.
— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com a das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.
No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.
— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando na pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.
Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas, assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéa, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.
— Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim...
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas
. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar a primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:
— Anda! agora! empurra! vá! vá!
Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: "Vem já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...?
Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para os telhados do fundo. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.
A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto...
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não...
— A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me...
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável mais cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
— Vá, disse ela; vá,
ragazzo innamorato...
E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.
— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...
A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.
— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá,
ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.
A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.
Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.



sábado, 12 de setembro de 2009

Auta de Souza



AUTA DE SOUZA. Nasceu em Macaíba, RN, em 12 de setembro de 1876; faleceu em Natal, em 7 de fevereiro de 1901. Poetiza brasileira, da segunda geração romântica (Ultra-Romântica, Byroniana ou Mal do Século).
Apesar de ligar-se ao Romantismo, alguns de seus poemas tinhas influência simbolista. Segundo Luís Câmara Cascudo, é a maior poetisa mística do Brasil.
Ficou órfã aos três anos. Quando tinha doze anos, seu irmão mais novo, Irineu Leão Rodrigues de Souza, morre em um acidente. Aos catorze anos, teve o diagnóstico de tuberculose (doença que matou seus pais). Apesar da doença, começou a escrever aos dezesseis anos.
Por volta de 1895, Auta conheceu João Leopoldo da Silva Loureiro, Promotor Público de sua cidade natal. Tiveram um namoro que durou 1 ano, quando fora, pelos irmãos, que temiam pelo seu estado de saúde, obrigada a romper o namoro. Logo depois da separação, João Leopoldo da Silva Loureiro morre vitimado pela tuberculose. Esta frustração amorosa se tornaria o quinto fator marcante de sua obra, junto à religiosidade, à orfandade, à morte trágica de seu irmão e à tuberculose.
A poetisa, então, encerrou seu primeiro livro de manuscritos, intitulado Dhálias, que mais tarde seria publicado sob o título de Horto.
Auta de Souza morreu em decorrência de tuberculose.


Num Leque

Na gaze loura d'este leque adeja
Não sei que aroma místico e encantado...
Doce morena! Abençoado seja
O doce aroma de teu leque amado!

Quando o entreabres, a sorrir, na Igreja,
O templo inteiro fica embalsamado...
Até minh'alma carinhosa o beija,
Como a toalha de um altar sagrado.

E enquanto o aroma inebriante voa,
Unido aos hinos que, no coro, entoa
A voz de um órgão soluçando dores,

Só me parece que o choroso canto
Sobe da gaze de teu leque santo,
Cheio de luz e de perfume e flores!



Álvares de Azevedo






Manuel Antônio ÁLVARES DE AZEVEDO. Nasceu em São Paulo, em 12 de setembro de 1831; faleceu no Rio de Janeiro, em 25 de abril de 1852. Escritor da segunda geração romântica (Ultra-Romântica, Byroniana ou Mal do Século), contista, dramaturgo, poeta e ensaísta brasileiro. Em 1847, ingressa na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Durante o Curso de Direito, traduz o quinto ato de Otelo, de W. Shakespeare, traduz Parisina, de Lord Byron, funda a revista da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano. Não chegou a concluir o Curso, pois foi acometido por uma tuberculose.
Sua obra compreende: Poesias diversas, Poema do Frade, o drama Macário, o romance O Livro de Fra Gondicário, Noite na Taverna, Cartas, vários Ensaios, e a sua principal obra Lira dos Vinte Anos.
Suas principais influências são Lord Byron, François-René de Chateaubriand e Alfred de Musset.
Morreu em decorrência de complicações de um tumor na fossa ilíaca, agravada após uma queda de cavalo, quando tinha 20 anos.
É o Patrono da Cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras.




Último Soneto 

Já da noite o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!

Do leito, embalde num macio encosto,

Tento o sono reter!... Já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece...
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!

O adeus, o teu adeus, minha saudade,

Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.

Dá-me a esperança com que o ser mantive!

Volve ao amante os olhos, por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive! 

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Carminis VIII - Herbert Haeckel


Carminis VIII
(Herbert Haeckel)

Toma conta de minha alma o inverno cruel... 
Na latebrosa noite, em que só eu me encontro,
Diante da tormenta, expiação terrível,
Eu me abnuo, calado, e então sofro, e me prostro...

Entristecido, choro, e a mágoa invencível
Inunda-me, e me invade o peito com frio austro...
E se o calor imane ora inflama a alma argel,
Não serena este algor, se me encontro assim claustro,

Porque se distas, meu peito plange a tristeza
De estar de ti mui longe, excídio este tão bruto...
Mas se me achegas, és para minh'alma o bálsamo,

E repeles a dor, de inarrável crueza,
Retirando-me assim a sensação do luto,
Pois que, sinceramente, a ti, mais que a mim, amo!


segunda-feira, 24 de agosto de 2009

E a Reforma Ortográfica... - Herbert Haeckel


Estava relutando em escrever qualquer coisa sobre o Acordo Ortográfico. Mas, sinceramente, não me poderia furtar de lançar-lhe as merecidas pedras (sutilmente!)...
Primeiramente, a tal reforma, como outras que lhe antecederam, serve, tão-somente, para brindar aqueles que não têm domínio no vernáculo. E por uma questão de praticidade, de ser o caminho mais curto, menos penoso, seria melhor achincalhar o idioma a promover melhorias no seu ensino.
É de bom alvitre assertar que não sou contra o dinamismo de uma língua. Ao contrário, entendo que o fenômeno lingüístico é, por excelência, dinâmico. Entretanto, devemos ir com calma!
Esse dinamismo deve ser natural e, principalmente, adequar-se ao gênio do idioma. É, também, uma questão de necessidade, uma vez que novos conceitos, novas coisas passam a existir, o que impõe ao idioma a transformação e a criação (criteriosa) de novos vocábulos. Neste sentido, há, inclusive, neologismos aceitáveis, quando existe um critério para a formação do novo vocábulo – quando sem critérios ou, até mesmo, desnecessários, os neologismos são inaceitáveis e, conseqüentemente, considerados vícios de linguagem. Mas, forçar mudanças simplesmente por mudar, para fazer valer os desígnios de uns poucos, para beneficiar este ou aquele, ou porque uma parcela das pessoas desconhece o idioma é, no mínimo, uma aberração.
E mais: a justificativa de unificar o idioma é totalmente descabida. Por que unificar o que foi diferençado ao longo do tempo, em virtude de fatores culturais?
Outra coisa interessante a notar é que sempre há quem ganhe nessas reformas ortográficas (menos o idioma, é claro!). Se observarmos, há sempre um gramático, um lexicógrafo a editar sua obra, estampados na capa os dizeres: «atualizado de acordo com as novas regras ortográficas», ou coisa parecida – muita vez, a obra é lançada antes mesmo da vigência da reforma, como já aconteceu no passado. Como o compromisso desses gramáticos e lexicógrafos é, tão-só, com o seu bolso, não se estão, nem um pouco, importando com o vernáculo – ele que vá para os diabos!
As justificativas para a reforma são as mais estúpidas. A reforma em si é estúpida, porque não possui critério algum (pelo menos os de índole positiva), senão a conveniência de uns poucos e a sua complacência com a deseducação.
Há na reforma, também, como não poderia deixar de ser, incongruências incontáveis. Somente para ilustrar, tem-se o caso dos acentos diferenciais.
Em particular, o diferencial que foi abolido no vocábulo pára (verbo). Segundo os propositores da reforma, seria o contexto que indicaria ser um verbo ou preposição. Será isto possível? Vejamos: acidentalmente, vi um anúncio publicitário de uma loja de móveis e eletrodomésticos, com uma chamada assim: «Para tudo. O Ricardo cobre tudo.». Seria o vocábulo para verbo ou preposição? Os dois; poderiam ser os dois... E o contexto? O contexto não ajuda em nada... Outro exemplo: «Maria para João». Tanto poderia ser um verbo, quanto uma preposição. O contexto tem como indicar se é um verbo ou uma preposição? Definitivamente, não! Como bem se pode ver, a falta de critério lógico foi decisiva para esta cilada promovida pela própria reforma.
Vamos continuar, um pouco mais, a brevíssima análise sobre os diferenciais. Péla (substantivo feminino) passa a ser escrito pela, como pela (verbo) e pela (contração da preposição por + artigo a). E aí vai: «Pela rua abaixo». Tem-se um substantivo feminino, um verbo ou uma preposição? Tanto faz. «Pelo curto»... Tem-se um substantivo masculino, um verbo ou uma preposição? Também, tanto faz! Não é possível, simplesmente pelo contexto, dúbio que é, definir, decifrar o que está escrito, o que impossibilita a comunicação – saliente-se que ler não é tão-somente desvendar um sistema de códigos; é, além disso, interpretar o que está codificado.
Se era para «facilitar» a comunicação – objetivo principal do idioma (é necessário afirmar que somente se pode dizer que há comunicação quando o emissor é compreendido pelo receptor) -, a reforma piorou-a.
O acento agudo do u tônico nos verbos argüir e redargüir, em suas formas rizotônicas, caiu. Então argúo passou a ser escrito arguo; argúis passou a ser arguis; argúa passou a ser argua (observe-se que não há qualquer indicativo de que o u seria tônico); argúem passou a ser arguem (aqui, ainda é pior: sequer se pode dizer que o u seria pronunciado, quanto mais que ele seria tônico)... Quero ver como será a prosódia destes vocábulos à leitura...
O trema... Segundo os proponentes da reforma, o trema cai, mas o u continua a ser pronunciado... E eu que não conheço os vocábulos da língua portuguesa, quando saberei que a letra u é ou não pronunciada? Nunca...
E o que dizer do acento circunflexo das palavras terminadas em ôo e em êem? Qual a justificativa para aboli-lo? Como muitos tombam ao escrever, grafando com diacríticos palavras que não o possuem ou deixando de grafá-los quando exigidos, melhor seria abolir alguns (de acordo com o entendimento de quem tramou a reforma).
E com relação ao hífen? Praticamente, nada foi alterado (muito embora se tenha feito um alarido). Aboliu-se em alguns pouquíssimos casos... Noutros, pouquíssimos também, acrescentou-se... É como chover no molhado...
Se a linguagem é qualquer sistema de sinais, por meio dos quais os seres se comunicam, no intuito de transmitir e receber mensagens – de informação, de expressão de sentimentos etc. -, há de existir efetividade nessa linguagem, ou não se terá a comunicação. E como a escrita é a representação gráfica da linguagem oral – que se baseia na emissão e recepção de sons, que quando combinados formam os sinais significativos das palavras -, nada mais impositivo do que escrever de forma inteligível. E a reforma, definitivamente, não colabora com este desiderato.
Portanto, continuarei a escrever como antes. Quem quiser que me «corrija»!


sábado, 15 de agosto de 2009

Carminis VII - Herbert Haeckel

Carminis VII
(Herbert Haeckel)

Amo-te... De amor, como o vento a liberdade
Ama. Amor que é querente, amor carnal... Amor,
Incorporal amor, que a ti, sem veleidade,
Impertérrito, tenho eu entregue com ardor...

Amo-te... De amor, como o devoto a deidade
Ama; amo-te como ama o alto céu o condor,
Como ama fielmente o casto a castidade, 
E o utópico antecéu, o firme sonhador...

Meu coração, de amor vertido, de abrasante
Amor, canta, feliz, sentimentalidades...
E se a distância fere o peito 'inda ofegante,

Achega-se a esperança... E a dor do coração,
Que já refeito, esvai-se, e de felicidades
Enche-me a alma, expungindo a cruel solidão!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Soneto 27 - Herbert Haeckel

Soneto 27
(Herbert Haeckel)

Na mádida manhã, vai-se a Lua tristonha,
Chorosa de saudade - a angustiante dor -,
Da espera estéril pelo amado, com quem sonha,
Em crido sentimento, enternecer o amor... 

E o Sol luzente acorda, e de longe acompanha
A amante, acanhada, ir-se, ao vir então o alvor...
Chama-a para voltar, mas ela, com vergonha,
Esconde-se fugaz, volvendo ao Sol se pôr...

O par de amantes sofre a eterna desventura,
E, pois, no desencontro, amam-se longemente,
Como amado a ti tenho em perversa lonjura...

Se o Sol à Lua entrega amor alvinitente,
Entrego a ti amor de lirial ternura,
E morro toda a vez que te fazes ausente!

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Soneto 6 - Herbert Haeckel


Soneto 6
(Herbert Haeckel)
Creio no homem, como crê a vítima em seu algoz! 
Que ardis temíveis há de esperar, da mentida
Mão afável, já pronta a ferir, com atroz
Ingratidão feléia, a alma em amor atida?

Que infortúnio verei, se na essência feroz
Do homem, lobo de si mesmo, de pervertida
Existência, mendaz, a ânsia, mais que veloz,
Extrai de todo o mal a vilanagem fétida?

E se a adversa fortuna achega-se minaz,
Estende-lhe a mão mui presta o carrasco audaz,
Com a rija intenção de sufocar, abrupto,

O padecente, já com a força exaurida,
E não mitiga o dano: aviva-o, com chaga hórrida,
Pois que revela ter no âmago o vil contempto!

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Soneto 4 - Herbert Haeckel

Soneto 4
(Herbert Haeckel)

O putrefeito cheiro exala do cadáver...
Que iracunda ação é a que deriva a morte,
De tão novel rapaz, o qual não pôde ver,
Na curta idade dele, o que o esperava a sorte?

Que indizível temor, umbroso, há de antever
Funesta sensação da ceifa, este transporte
Para o incógnito lado, e assim a demover
O sonho maternal de ver o fruto forte?

A singelez de tudo escapa ao olhar mundano,
E mascara a real feição da exatidão...
E a sorte adversa teima em ser uma mensagem,

Ou até do coração dos pesares o láudano,
De que do corpo a morte é tão-somente então
O livramento da alma a seguir em viagem...

Cláudio Manuel da Costa

CLÁUDIO MANUEL DA COSTA. Poeta e jurista brasileiro, nascido em Vargem do Itacolomi (atualmente Mariana), MG, em 04 de julho de 1729; morreu em Vila Rica (atualmente Ouro Preto), MG, em 04 de julho de 1789. Tornou-se conhecido pela sua obra poética e pelo envolvimento com a Inconfidência Mineira. Foi um advogado de prestígio, fazendeiro abastado, um pensador de mente aberta. Foi mecenas de Aleijadinho. A História oficial diz que Cláudio Manuel da Costa ter-se-ia suicidado, dando-lhe a pecha de covarde e de traidor dos amigos. Entretanto, fortes indícios de que Cláudio da Costa não cometera suicídio, mas teria sido assassinado. O próprio laudo cadavérico que concluíra pelo suicídio é indicador da tese de assassinato, ao registrar que Cláudio da Costa se enforcou usando os cadarços do calção, amarrados numa prateleira, contra a qual ele teria apertado o laço, forçando com um braço e um joelho. Muitos acreditam ser impossível alguém conseguir enforcar-se em tais circunstâncias. Outrossim, há registros de missas, pelo sufrágio de sua alma, realizadas na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto, quando, à época, era proibida a realização de missas pelos suicidas.
O poeta fez parte da transição do Barroco para o Arcadismo. Seus sonetos herdaram a tradição camoniana.



Soneto LXIV

Que tarde nasce o Sol, que vagaroso!
Parece que se cansa de que a um triste
Haja de parecer: quando resiste
A seu raio este sítio tenebroso!

Não pode ser que o giro luminoso
Tanto tempo detenha: se persiste
Acaso o meu delírio! se me assiste
Ainda aquele humor tão venenoso!

Aquela porta ali se está cerrando;
Dela sai o Pastor: outro assobia,
E o gado para o monte vai chamando.

Ora não há mais louca fantasia!
Mas quem anda, como eu, assim penando,
Não sabe quando é noite, ou quando é dia.


domingo, 2 de agosto de 2009

Soneto 7 - Herbert Haeckel

Soneto 7
(Herbert Haeckel)

Na putrilagem, fez-se homem de patrimônio,
Que com capuz de honesto, ele enganava, igual
Sem ter, o tolo e o incauto... E o célebre palrônio
Não poupava ninguém, como lhe era usual...

Acoberta a miúdo intelecto lacônio,
É por sem dúvida um parvo tão desigual!
E o pascácio é audaz: faz do encargo um telônio,
Com pouco siso, mui rendoso e inusual...

De aspeto pigmeu, é até no gênio escasso:
Se o agastam, faz-se fera, e aligeira a vindita -
Esta que é sua marca -, e chega e se avoluma...

Mas quem é este lorpa, incurado, devasso,
De essência enodoada e de cólera abscôndita?
Eis então o elemento atroz: «O homem cai. (Uma)»!

 

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Soneto 3 - Herbert Haeckel

Soneto 3
(Herbert Haeckel)

Entrelaçam-se então os corpos na paixão
Indômita, em perfeito e simétrico vínculo,
Que unidos de tal forma, impedem a visão
Embotada da luz escassa... E o mui longo ósculo,

De indócil erotismo e de sofreguidão,
Clamando esta junção, à espera do pináculo -
Indescritível senso e tórrida emoção -
Em que se esvaem corpo e alma ao vir o crepúsculo...

Da carnal ligação, os corpos inconsúteis,
Buscam, ao derredor, mui trêmulos, exaustos,
Em um suspiro lasso, o ânimo sequioso

Do sensual amor... Baldadas as inúteis
Tréguas, os corpos hão, em mil desejos faustos,
De dar-se, loucamente, ao amor obsequioso!

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Soneto 2 - Herbert Haeckel


Soneto 2
(Herbert Haeckel)

 
Arde em meu peito uma paixão pungente,
Que despedaça, fere, dilacera
A alma inquieta e o coração lugente,
E os dias meus sega, como uma fera...

É um sofrer tal que, de amor querente,
Desvanece a inveraz, falsa quimera,
E cega a visão, co'a adaga inclemente,
De quem, em vão, algum amor espera... 

Este amor fugidiço, 'inda intangível,
Disperde-me em antínoma vontade,
De adorar-te ou de ter-te em conjunção...

Mas como pode então ser compreensível,
Ter alguém a outro o amor, se na verdade
O amor que tem por si é só ilusão?

domingo, 26 de julho de 2009

Não se Apague esta Noite - Flávio Venturini

Não se Apague esta Noite - Flávio Venturini

1 - Mantra da Criação
2 - Recomeçar
3 - Noites com Sol - part. esp. de Marina Machado
4 - Não se Apague esta Noite
5 - O Melhor do Amor

6 - Pierrot - part. esp. de Mart'Nália
7 - Romance - part. esp. de Cláudio Venturini
8 - Minha Estrela
9 - Beija Flor - part. esp. de Luíza Possi
10 - Criaturas da Noite
11 - Verão nos Andes
12 - No Trem do Amor
13 - Morro Branco
14 - Música



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Este Blog possui estritamente caráter cultural. Nosso propósito é, tão-somente, divulgar a cultura. Aqui não se hospedam arquivos de música ou quaisquer outros, e os links têm prazo de validade limitado.
Ao baixar arquivos, apague-os no prazo de 24h. Acaso goste do que ouviu, adquira o álbum em lojas especializadas.

Uma Canção no Rádio - Fagner

Uma Canção no Rádio - Fagner

1 - Muito Amor
2 - Regra do Amor
3 - Sonetos
4 - Uma Canção no Rádio (Filme Antigo) - part. esp. de Zeca Baleiro
5 - Martelo - part. esp. de Gabriel o Pensador

6 - Me Dá Meu Coração
7 - Flor do Mamulengo
8 - Farinha de Comer
9 - Amor Infinito
10 - A Voz do Silêncio


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Pensamentos...



«Mesmo a mulher mais sincera esconde algum segredo no fundo do seu coração.» (Kant)

«Assim como se diz que a hipocrisia é o maior elogio da virtude, a arte de mentir é o mais forte reconhecimento da força da verdade.» (William Hazlitt)

«Conhecer a verdade não é o mesmo que amá-la e amar a verdade não equivale a deleitar-se com ela.» (Confúcio)

«A água corre tranqüila quando o rio é fundo.» (William Shakespeare)

«O repouso é bom, mas o tédio é irmão do repouso.» (Voltaire)

«Você será avarento se conviver com homens mesquinhos e avarentos. Será vaidoso se conviver com homens arrogantes. Jamais se livrará da crueldade se compartilhar sua casa com um torturador. Alimentará sua luxúria confraternizando-se com os adúlteros. Se quer livrar-se de seus vícios, mantenha-se afastado do exemplo dos viciados.» (Sêneca)

«É extremamente fácil enganar a si mesmo, pois o homem geralmente acredita no que deseja» (Demóstenes)

«Precisamos parecer um pouco com os outros para compreender os outros, mas precisamos ser um pouco diferentes para amá-los.» (Paul Géraldy)

«O que sabemos é uma gota e o que ignoramos é um oceano.» (Isaac Newton)

«Na atual sociedade, em que os valores estão invertidos, o dinheiro é capaz de comprar tudo, inclusive a verdade, a amizade e o amor. Mas, findo o dinheiro, esgotam-se, também, e ao mesmo tempo, as verdades, as amizades e os amores por ele comprados.» (Herbert Haeckel)

Curiosidades

Calcula-se que há 100 milhões de insetos para cada ser humano.

A maior borboleta do mundo é a Queen Alexandra Birdwing, encontrada numa pequena área da floresta tropical no norte da Papua Nova Guiné. A fêmea, que é maior que o macho, pode chegar a 31 cm de envergadura e ter massa de até 12kg. Está ameaçada de extinção, em razão da destruição de seu habitat natural.

O órgão sexual da aranha macha está localizado no final de uma de suas patas.

As abelhas possuem cinco olhos; três pequenos no topo da cabeça e os dois maiores na frente.

Alguns insetos conseguem viver até um ano sem a cabeça.

Uma barata pode viver até 6 dias sem a cabeça; acaba morrendo de fome, porque não tem como se alimentar.

As formigas comunicam-se por meio do olfato.

Mosquitos são atraídos duas vezes mais pela cor azul do que por qualquer outra cor.

O inseto com o maior cérebro em relação ao tamanho do corpo é a formiga.

Os mosquitos fêmeos chupam o sangue, porque necessitam das proteínas para desenvolver os ovos que carregam.

Uma asa de mosquito move-se mil vezes a cada segundo.

As moscas domésticas vivem apenas 2 semanas.

Os mosquitos causaram mais mortes do que todas as guerras juntas.

A luz dos vaga-lumes é produzida pela oxidação de uma substância química chamada luciferina na presença de uma enzima chamada luciferase, de ATP (fonte de energia) e de magnésio. A cor e o ritmo da luz variam de acordo com a espécie. O animal pode controlar a produção, a duração e a intermitência (quantas vezes acende e apaga) da luz. A luminescência é um aviso aos inimigos para que se afastem. Nos adultos, também tem a função de atrair a fêmea para o acasalamento.