domingo, 8 de março de 2020

Pequeníssima Reflexão sobre o 8 de Março
(Herbert Haeckel)


Nove entre dez pessoas no Mundo carregam consigo o preconceito de gênero, segundo estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), divulgado há menos de uma semana. Esse preconceito inclui, principalmente, a falsa concepção de que a mulher seria inferior ao homem, e que por isso não mereceria o mesmo tratamento que se dá aos homens, que não deveria ocupar os mesmos espaços que o homem ocupa, que deveria exercer uma função secundária na sociedade... 
Em 2019, foram assassinadas no Brasil 1.314 mulheres. As motivações foram várias, mas, um atributo é comum a todos esses assassinatos: o preconceito de gênero, que insiste em colocar a mulher num plano inferior. 
Há uma equivocada e nefasta concepção de que a mulher é objeto de dominação. Ela, sobremaneira ao relacionar-se com alguém, passa a ser vista como a propriedade daquele com quem se relaciona, que a priva, em todos os sentidos, de viver a sua própria vida. Há milhares de maridos, companheiros, namorados, pais, irmãos, tios, colegas etc. que se veem numa fictícia superioridade e que se acham capazes de decidir o destino de uma mulher. 
Não é fácil ser mulher, principalmente numa sociedade baseada no patriarcalismo e no machismo. 
Não é fácil ser mulher numa sociedade em que se pratica, muita vez com disfarces, o preconceito de gênero. 
Não é fácil ser mulher numa sociedade em que há misoginia. 
Não é fácil ser mulher numa sociedade em que há a hipocrisia de homenageá-la num único dia do ano e desprestigiá-la nos demais dias do ano, colocando-a num plano de inferioridade, humilhando-a, violentando-a, torturando-a, assediando-a, matando-a...
Não há mais espaço para estes tipos de comportamento. Afinal, estamos a ingressar na terceira década do terceiro milênio...
Dia 8 de Março, hoje para mim, é dia de reflexão, é dia de silenciar-me para permitir-me ouvir o grito ensurdecedor de quem é vilipendiada, é torturada, é assediada, é espancada, é violentada, é assassinada em todos os dias do ano; é dia de calar a minha voz para que se façam ouvir as vozes de quem a sociedade cruelmente, desumanamente amordaçou. 
E que nos outros dias do ano eu possa ouvir e fazer reverberar as vozes de quem não curvou a cerviz e levantou-se contra a masculinidade doentia, tóxica. 
Laíses, Amélias, Anas, Marias, Patrícias, Brunas, Emílias, Marisas, Micheles, Ideais, Olímpias, Sônias, Jumárias, Adrianas, Cristinas, Elzas, Elizas, Elzanes, Hirleides, Lívias, Luzinetes, Lucianas, Iracys, Marinas, Naiaras, Sandras, Renatas, Lúcias, Tânias, Neides, Antônias, Márcias, Alessandras, Noelys, Iracemas, Luízas, Helenas, Jaquelines, Magdas, Janeides, Joanas, Virgínias, Dandaras, Josefinas, Nísias, Anitas, Emmelines, Berthas, Jerônymas, Pagus, Olgas, Sophias, Simones, Shirleys, Leilas, Lauras, Roses, Auroras, Suelys, Alceris, Marilenas, Iaras, Dinalvas, Catarinas, NildasZuzus, Dilmas, Vanessas, Manuelas, Fernandas, Natálias, Janaínas, Romildas, Jusselias, Alices, Carolinas, Célias, Marianas, Milenas, Marielles, este não é o vosso único dia! 


sexta-feira, 6 de março de 2020

Antropologia do apocalipse
(Herbert Haeckel)


Novos e mais sombrios tempos!
Ampliaram-se os conceitos... O de cultura, por exemplo...
Pode-se afirmar, hoje, que cultura é assim: o sujeito inicia o dia comendo feijoada, dobradinha, mocotó, farofa, rabada, buchada de bode, sarapatel, barreado, cuscuz com sardinha e ovo cozido, pastel-de-feira, caldo de cana, açaí, mais ovo cozido, repolho, batata-doce, feijão tropeiro, baião-de-dois... Joga por cima litros de caipirinha e de batida de maracujá, acompanhadas daquela cervejinha. Dá uns passos de catira, sacoleja a carcaça num fandango caiçara, come mais uns quitutes, batatinha em conserva, salada de cebola, pão de queijo, croquete de salsicha, mais ovo cozido. Larga a mão com força no pandeiro e dá aquela sambada de mestre-sala, com rodopio de porta-bandeira, joga uns passos de capoeira e vai do maracatu ao frevo, sem perder o tom. Come mais uma dúzia de ovos cozidos, salada de batata e maionese, bebe cajuína, chimarrão, tarubá e guariba... Empina pipa e papagaio, antes do culto ou da missa das dez, vai ao desafio repentista só para dizer palavrão, mais ovo cozido e cervejinha, tiquira, aluá, com bolo de puba na quermesse, arroz doce, mugunzá e cachaça de jambu. No final, com o bucho em verdadeiro motim, revoltado, indignado, vai espirrar e solta aquele peido azedo, sulfurado, que afugenta até palhaço de circo e que acaba com o forró, mesmo jogando talco no salão. Cultura é isso, cultura é assim...

terça-feira, 3 de março de 2020

CRÔNICAS - Herbert Haeckel

A cada um segundo as suas obras...
(Herbert Haeckel)


Ante a pia batismal, deram-lhe o nome Agripino Ramos. Era o quinto de oito filhos. Aos catorze anos, era o mais velho entre os quatro que a morte não visitou.
Seu pai despenhara-se no abismo de concreto – não sei se é apenas uma construção metafórica, ou se realmente veio bater no chão, despedaçando-se... Mas, tento ser fiel ao que me foi narrado.
Por injunção, virou arrimo. Único homem da casa.
Foi ser engraxate nas ruas. Perambulava pela Líbero Badaró, ali nas cercanias do edifício Saldanha Marinho, e pela São João. E nas proximidades do restaurante A Brasileira, onde hoje é o Guanabara, conheceu o imigrante italiano Giulio Catafesta.
Certa vez, Agripino, para não manchar da graxa preta a barra das calças de linho, sem água para borrifar, lambeu os sapatos de Giulio.
Sua subserviência valeu-lhe um emprego na Catafesta Têxtil. Virou, posso assim dizer, o braço direito de Giulio Catafesta.
Agripino, já com vinte e cinco anos, chegou a gerente. Giulio encantara-se com Deolinda, a irmã mais nova de Agripino, que mal completara quinze anos. Giulio qui-la. Agripino deu-lha. Em troca, o cargo de gerente.
Dos pequenos delitos, dos tempos de rua, passou Agripino a empreender outros de maior complexidade. Já via com mais clareza a possibilidade de ganhos com a ilicitude. Para isso, faltava-lhe a noção de boa moral. Esperar uma boa conduta de Agripino é esperar colheita em solo sáfaro.

Não se lhe assentou uma gota sequer de remorso diante da notícia de que Deolinda, depois de ser violentada por Giulio, de ser humilhada, jogara-se embaixo de um trem na Estrada de Ferro Central do Brasil. Para desespero somente de Abílio Pereira, cujo coração, dado em promessa a Deolinda, despedaçou-se também nos trilhos da Central.  

Tal era a subjunção de Agripino a Giulio, tal era a promiscuidade entre ambos, já se referiam a ele como “Agripino do Catafesta”.
Conseguiu na justiça, num processo em que gastou uma considerável soma em dinheiro, principalmente para convencer o venal juiz Vasco Modesto, acrescer ao seu nome o Catafesta de Giulio. Passou, então, a assinar Agripino Catafesta – sob o protesto de um e outro Catafesta, que não aprovavam o uso do nome familial por pessoa, digamos assim, de índole contestável.
Não, meus caríssimos leitores, não é meu este juízo de valores! Quem diz que Agripino Catafesta não é gente de boa conduta é quem o conhece. Nunca o vi!
Agripino candidatou-se a deputado. Elegeu-se. Já contava com invejável patrimônio, e passou a ser sua a fábrica de tecidos em que teve o primeiro e único emprego. Giulio afirma que foi enganado...
Agripino vive nos noticiários. Contrabando, sonegação fiscal, improbidade administrativa, crime ambiental, porte ilegal de arma de fogo, corrupção, formação de quadrilha... Uma lista variada e quase infindável de delitos... Por último, um balão dirigível carregado de metanfetamina foi apreendido em uma de suas fazendas. Agripino nega peremptoriamente que a fazenda seja sua.
Malgrado tantos crimes, Agripino segue livre e solto, presidindo o clube de seu coração. Soube há pouco, por intermédio do amigo jornalista Oswaldo Porto, que Agripino ameaça virar ministro.
Giulio Catafesta, hoje com 98 anos, morando num asilo mantido pela Irmandade de São Frumêncio, falou-me ao fim de nossa palestra, após escarrar:
- Porca miseria! Maledetto il giorno che l’ho incontrato quello farabutto!
Fitei-o. A cada um segundo as suas obras...

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

CRÔNICAS - Herbert Haeckel

Kama Sutra
(Herbert Haeckel)


Logo cedo, quase junto ao sol a despontar no horizonte, liga-me Finório Sabará. Aflito. Muito aflito. Muitíssimo aflito. 
Pedi-lhe calma. O desespero é o adubo para o florescer do caos. Por isso, antes de qualquer coisa “ir para o vinagre”, como diziam antanho, respirai fundo e tende calma... muita calma!
Para tudo, há uma solução - inclusive para a morte, conquanto não vos cansais de dizer que para a morte não há o que se fazer... Enganai-vos: inumação ou cremação. Eis, uma ou outra, o remédio plenamente eficaz!
Mas, não foi para filosofar que vim hoje até vós, caríssimos leitores...
Como vos ia dizendo, Finório estava aflitíssimo. Narrou-me, com impressionante - aprende, parvo ministro, como se escreve! - riqueza de detalhes, o que o afligia. Não vou permitir-me reproduzir aqui esses detalhes... Há crianças na sala!
Há três dias, pensou Finório ter uma grande ideia. Foi a uma livraria e comprou um “manual” com gravuras modernas da obra de Vatsyayana - mas, não o Mallanaga. Iria, com sua prestimosa esposa, Marcionília Sabará, testar as posições do milenar Kama Sutra. Todas elas. 
Ontem, depois de muitos preparativos - puseram até um tatame no chão da sala de estar - iniciaram os trabalhos. 
Uma, duas, três posições ... A coisa foi ficando, cada vez mais, digamos assim, interessante...
O ser humano é assaz enigmático: nunca se satisfaz com nada. Isso não é ruim! Graças a esta inquietude, as ciências avançaram! 
Finório Sabará é uma destas pessoas, deixai-me ver, talvez não me expresse com perfeição, visionárias... Isso! Se Isaac Newton não houvesse observado a maçã deixar-se conduzir pelos efeitos da gravidade, Finório, certamente, observaria a tal maçã, ou, quem sabe até, uma banana...
Finório e sua dedicadíssima consorte não se limitaram a copiar as posições do exemplar do Kama Sutra. Eles, principalmente ele, queriam mais. Por sugestão de Finório, criariam uma posição, a partir de outras já registradas naquela que era uma das mais antigas obras literárias acerca do comportamento sexual humano. Mas, com muito mais tempero... Tempero tropical. Pimenta!
Dirigi-me à casa de Sabará. No caminho, arquitetava uma solução para a desdita do amigo casal. Nada me ocorreu. 
Passei num chaveiro, como havia prometido. E também não deixei que o chaveiro visse a cena. 
Toda a insanidade do mundo é pouca para descrever o desatino que vi. 
Finório e Marcionília estavam literalmente enroscados. Não sei onde começava um, nem onde terminava o outro. 
Não consegui, sozinho, desenovelá-los. Acudiu-nos o corpo de bombeiros. 
Não quis, depois, ver o vídeo, gravado pelo telemóvel de Finório, até mesmo para entender o que de fato acontecera, mesmo Finório a insistir que eu o visse. 
O olhar de Marcionília Sabará, desde a minha chegada, era o da máxima vergonha encarnada. Não poderia eu agir de modo a agravar o seu incomensurável desaire. 
Por conseguinte, também tive de dizer adeus às deliciosas empadas de Marcionília... Quanta dor!
No caminho de volta ao aconchego do meu lar, passei numa livraria. Cheguei, admito, a folhear o malsinado manual que causara todos os problemas, sobretudo a renúncia imperativa às oníricas iguarias de Marcionília Sabará. Mas, em lugar dele, levei um livro de receitas de empadas. Fá-las-ei muito brevemente, assim que eu consiga fazer com que caia no oblívio a posição da flexão invertida...

sexta-feira, 15 de novembro de 2019



CRÔNICAS - Herbert Haeckel

Cidadãos de bens
(Herbert Haeckel)

Polifemo Almeirão sempre disse cultuar os “bons costumes”. Sempre disse ser, como de cotio se diz hoje a canalha numerosa, “cidadão de bem”. 
Nasceu, em verdade, num berço de pobreza e desamor. Com quase nada para comer, aos sete anos, Polifemo, que ainda disputava com outros três irmãos - que sequer tiveram um enterro digno - o peito combalido da mãe, Dona Jurandira - que se suicidou alguns anos depois, após profundo desgosto, segundo comentavam na antiga Rua Santa Cruz, na qual trabalhava, e também onde tombou o poeta Costa - prometeu a si mesmo que não passaria fome, mesmo que houvesse de pagar enorme preço.
Não lhe sendo apetecível a conciliação do estudo com o trabalho, Polifemo, aos treze anos, abandonou a escola e foi-se empregar na chapelaria do português Amálio Coutinho.
Aos dezenove anos, Polifemo ficou com a metade dos bens de Coutinho, deixada em testamento, do qual discordaram remuito, com razão, mas baldadamente, os descendentes do chapeleiro lusitano.
Neste mesmo ano, casou-se com Anadiômena Fagundes, filha única do viúvo Estélio Catarino Vilarreal do Amaral Fagundes, homem mais rico da região, que se jactava da descendência do Barão de Guaitacá, seu avô materno. Estélio, a propósito, sempre comentava suspiroso, num e noutro canto, que não encontraria um pretendente suficientemente desavisado, e com olfato mui defeituoso, para desposar sua filha, de temperamento difícil, de uma feiura incontestável e de tez escabiosa, sem falar no daninho hábito de banhar-se somente uma vez por semana quando nos dias mais quentes da primavera e do verão.
Castilho Todeschini, numa carta que me mostrou Adília Coutinho, poucos meses antes de ter seu nome publicado no necrológio do Diário de Notícias Gonçalense, discorreu sobre as estranhas coincidências que envolveram a morte de pai e filha, e de como a premoriência de Estélio Fagundes prestou incomensurável beneficio a Polifemo.
O homem, vou aqui generalizar, embora não seja eu adepto dessas generalizações, nunca está contente suficientemente com o que tem ou com o que é. Sempre quer mais. Há um limite, ou, pelo menos, deveria haver, é certo, na ambição, para que ela não se transforme em doença. Todavia, Polifemo nunca teve limites. Para ele, o pouco é nada, o muito é pouco e o tudo é o desejável.
Mudou-se para próximo ao paralelo 15º, porque lá é que se decidem as coisas.
Há alguns anos, conheceu o venal e corrupto juiz Rubson Almirante, que ingressou na magistratura graças aos obséquios de seu sogro, que, temendo a sorte da filha que contraíra núpcias com um ordinário advogado, deu-lhe as questões das provas.
Uma grande amizade, ou, como querem alguns, uma grande sociedade, não só na comilagem, formou-se entre Polifemo e Rubson.
Contou, certa vez, o cartunista Nilo Rabelo, numa churrascada na casa do empresário potiguar Torres da Cruz, para todos que quisessem ouvir, que Polifemo e Rubson compartilhavam o amor e a cama de Felícia Almirante, consorte do juiz larápio - além da sífilis, é claro!
Nilo Rabelo não tem mais como confirmar essa história. Morreu, alguns dias depois de revelar espinhoso segredo, quando saía de um bar na 109 Sul. Foi atropelado pelo motorista de Polifemo. Uma grande coincidência...
Com a igreja - ah! olvidei-me de dizer-vos que Polifemo fundou uma igreja neopentecostal, que, como ele mesmo dizia, era uma verdadeira mina de ouro! - arrastando a cada dia mais e mais pascácios, digo, fiéis, Polifemo resolveu entrar para a política. Candidatou-se a deputado. Foi eleito, usando assumidamente "caixa 2".
Mas, isso é de somenos. Já inclusive pediu desculpas pelo deslize, assim como pediu desculpas pelos crimes de formação de quadrilha, sonegação de impostos, receptação, estelionato, redução à condição análoga à de escravo, tráfico de entorpecentes, extorsão, constituição de milícia privada, homicídio, lenocínio, estupro de vulnerável, pedofilia, tráfico de pessoas e mais alguns outros...
Como Polifemo Almeirão, que se assume ungido por seu deus, é um patriota, é um defensor da família tradicional e da moral e dos bons costumes, tem o perdão, o beneplácito dos que também se dizem cidadãos de bem. Segue Polifemo a vida normalmente, e continua a delinquir a flux...
Bandido, para eles, cidadãos de bens, é o Sapo Barbudo!





sábado, 9 de novembro de 2019

CRÔNICAS - Herbert Haeckel

Café “gourmet”
(Herbert Haeckel)


Velório é uma local de respeito a quem se desenvencilha da materialidade orgânica e experimenta novamente as sensações da verdadeira vida. A morte é um processo revolucionário, em que os despojos carnais ingressam, irremediavelmente, em curso de degradação biológica e química, causando, muita vez, o transtorno psíquico naquele que não entende, ou não quer entender, a fenomenologia da morte, diante da plenitude e da ininterrupção da vida.
Policio-me, portanto, com relação à minha conduta para com o recém desencarnado, para que eu não atrapalhe o seu trânsito em retorno à Pátria dos Espíritos.
Espero, sinceramente, que assim também ajam os que se dispuserem a velar meu corpo quando da minha Grande Viagem!
Guardando-me em preces silenciosas, em homenagem a Fortunato Modesto, que abandonara o corpo físico em razão de um susto que levou, fui interrompido por Anísia Tamarineiro, com sua peculiar deseducação. Quão efêmeros me pareceram os longos e prazerosos doze anos durante os quais eu não a vi!
Afastei-me do ataúde. Antes que eu pensasse em fugir dali, Anísia segurou-me pelo braço. Perguntou-me sobre tudo o que achava importante saber, para que, assim que saísse das exéquias de Fortunato, pudesse transformar em maledicências. Respondia-lhe sempre com um “não sei”.
Cansada, quiçá, de tanto perguntar e nada obter de resposta concreta, mudou de assunto. Lembrou-se do velório de Argemiro Borba, quando nos havíamos encontrado pela última vez. Falou-me do inesquecível café, que não cansou de beber enquanto tecia os mexericos sobre Argemiro e suas supostas teúdas e manteúdas, sob o olhar perplexo da pobre e inocente viúva, Dona Osvaldina...
Ah! O café! Elogiado por todos! Uma verdadeira delícia, segundo os presentes no velório de Argemiro! Qual o segredo de saborosíssima bebida? Confesso-vos, meus caríssimos leitores, que não bebi o café - o açúcar, para mim, altera sensivelmente o gosto da bebida. Não aprecio café adoçado. Acaso queirais oferecer-me um café, dai-mo sem açúcar, por favor!
- Pois é, Anísia... O café... Eu é que o fiz!
- Até hoje eu não me esqueço! disse-me Anísia, acenando para Santiaga Fontes, outra reconhecida mexeriqueira, chamando-a para a palestra.
- Mulher, lembra do café que bebemos no velório do depravado Argemiro Borba? Foi ele quem fez! apontando para mim.
Santiaga, que poderia eu supor ser ela a mãe da inveja, balançou a cabeça, como a duvidar. Todavia, pediu-me a receita.
- É definitivamente impossível repetir o mesmo sabor! disse-lhes com extrema convicção... Explico: como não havia uma gota de água na casa do defunto Argemiro, usei a mesma água que banhara o cadáver, antes de colocarem-lhe a mortalha. Estava numa bacia no fundo do quintal... Peguei dessa água! Eis o segredo do inolvidável café!
Depois disso, quando elas me veem na rua, mudam de calçada.
Não pretendo contar-lhes que o defunto de Argemiro, na verdade, não foi banhado, porque a única água que havia era, justamente, para o café a ser servido no velório.
Melhor assim como está... Não correrei, pois, o risco de anojar-me de suas desagradáveis presenças!





quinta-feira, 31 de outubro de 2019

CRÔNICAS - Herbert Haeckel

Quem disse que machismo é coisa só de homem?
(Herbert Haeckel)


Mamertina Gonçalo Alves é infeliz. A duplicidade de vida que escolheu ter causou-lhe, principalmente, essa infelicidade.
Ah! Dizeis-me, agora, que seu peculiar pendor para as intrigas familiares seria o motivo de todo o seu infortúnio! Inclino-me para não vos contestar integralmente, porquanto me é mais útil crer que Mamertina não é uma pessoa de má índole... É, sim, uma pobre coitada, como se costuma dizer nas cercanias. Paupérrima de espírito, apiado-me dela!
Escondia de seus pais sua condição, ou, pelo menos, pensava estar secreta para eles. Ledo engano!
Escreveu-me há alguns anos Ariano, pai de Mamertina, revelando-me suas preocupações com a desditada filha. Logo, é de supor que ele tinha plena ciência do que se passava com Mamertina. Aconselhei-o, à época, paciência e prudência, e que enxergasse a situação com naturalidade, porque assim deveria ser.
Longe do olhar fiscalizador, principalmente de seus pais, que lhe oprimia assaz, decidiu que viveria afastada do aconchego familiar. Não seria difícil, haja vista dizer que amava a família somente para inglês ver.
Novos ares, entretanto, não lhe trouxeram mudanças significativas. Continuava a ser a mesma pessoa.
Numa tarde de sábado primaveril, conheceu Amapola, formosa moça, de dulçor incomparável e de uma jovialidade impressionante. Foi encanto à primeira vista.
Assediou-a Mamertina o quanto pôde, até que Amapola não resistiu às promessas de uma vida de regalos, de abastança - ela que vinha de humílima família. Juntou, pois, seus pouquíssimos pertences e foi morar com Mamertina.
Quiçá tenha eu caído no oblívio e, involuntariamente, neguei-vos importante informação: Mamertina era machista, incuravelmente machista. Haveis de perguntar-me: como é possível uma mulher machista? O machismo não é, como podeis erroneamente supor, algo inerente ao sexo masculino. Decadente defeito, o machismo tem mais que ver com o repertório moral do indivíduo que com o seu gênero. A masculinidade tóxica não é uma exclusividade dos homens.
E, como nem tudo são flores eternamente, Amapola caiu em desgraça: quando não apanhava pela manhã, à tarde o espancamento era certo.
Sete longos anos durante, Amapola foi agredida psíquica e fisicamente por Mamertina.
Hoje, Amapola fez-se morta para Mamertina. Vive feliz noutro casamento, em que amor e respeito lhe são dados integralmente. Amapola, enfim, voltou a ter o brilho nos olhos.
Mamertina, que nunca soube o que é o verdadeiro amor, lamenta-se da sorte que a acompanha. Todavia, nada fez, nem faz, para progredir moralmente: sempre que pode, esmera-se em plantar a discórdia na família que tanto diz amar...
Paupérrima de espírito, apiado-me dela!


terça-feira, 11 de junho de 2019


CALEMBURGO

(Herbert Haeckel)

Disse-me cedo: dia de poetar!
Rabisco aqui, rabisco ali... E nada!
Lembrei-me da cana, da cana doce,
Doce mel, doce mel de uruçu...
Cana que não me calha e nem me cala...
Veio a mim um calemburgo... anotai aí:
E aquele que acha que o canalha Moro
Canalha não é – digo-vos então -
É mais canalha que o Moro canalha!

sábado, 30 de março de 2019

Quem defende a nova política?

(Herbert Haeckel)

Ouço o canto da sereia... Mergulho, desavisado que sou, nas águas tépidas à procura da bela mulher que me acenava ao longe e me enebriava com seu canto encantador...
Já próximo àquela fêmea de rosto angelical, descubro-me em terríveis e invencíveis apuros: ela não possui coxas nem pernas, mas um rabo de peixe, de cintilantes escamas. Também não sei nadar. Contristo-me. Mas, agora é tarde! Farei, desalentado, companhia à Inês...
A nova política é o sedutor canto das sereias. 
Vale-se, principalmente, dos nossos desejos mais recônditos e, outrossim, da necessidade que sentimos de experimentar o desconhecido. 
De novo, nada há, senão a impressão de nova roupagem, que já se apresenta rota mesmo antes do uso. Basta uma pequena análise para perceber que a roupa é aquele andrajo vestido pelo avesso. 
A nova política nada mais é que a velha política de privilégios, de concentração de riquezas, de liquidação (higienismo) dos miseráveis...
Ela surge num contexto de diminuição das desigualdades sociais, ainda que essa diminuição fosse quase imperceptível. 
As oligarquias nunca admitiram, e não admitirão, perder um milímetro quadrado de seu espaço. 
E para executar este intento, rostos novos, caras jovens, de sucesso (ainda que incipiente) figuram nos papéis principais e nos coadjuvantes. São esses os atores que se projetam na grande tela de nossos anseios, fazendo-nos acreditar que existe uma relação meritocrática entre o não-ter e o ter. 
Quem há de dizer que não se sentiu, ao menos por alguns segundos, hipnotizado, seduzido, pelas melódicas notas musicais saídas dos discursos desses representantes da nova política?
Todavia, não vos enganeis! 
Eles foram doutrinados exatamente para isso: para que vós os olhais com os olhos da ingenuidade e que enxergais neles a solução para os vossos problemas. Ledo engano! Com o passar do tempo, vereis, desiludidos, que vossos problemas apenas começaram...






quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

CRÔNICAS - Herbert Haeckel

Nem tudo que cai da goiabeira é goiaba
(Herbert Haeckel)

Clarisvalda do Espírito Santo abandonou o serviço público, em que mais desserviu do que serviu, e foi pregar a palavra de “God” - não vos espanteis, caríssimos leitores, mas ela anglicizava tudo!
Dizia-se messiânica - na verdade, “messianic”.
Convenhamos, não era ela muito bem querida na sociedade. Recebeu algumas pedras, inclusive de quem também havia pecado. Mas, quem sou eu para julgar?
Sua vida mudou, da água para o vinagre, quando vinha caminhando, depois de exaustiva pregação, tarde da noite, para sua casa, no Alto da Soledade.
Começou de sentir as entranhas dominarem seus sentidos. Uma dor terrível parecia cortar seu abdômen. A comida não lhe fizera muito bem.
Aproximou-se de uma goiabeira. Ouviu o chamado intestino. Seria ali mesmo. Mas, havia ainda transeuntes.
Outra vez a voz intestina manifestava-se, já com uma certa rebeldia, e dizia que subisse prontamente na goiabeira. Subiu, com uma destreza nunca antes vista. Aprumou-se num galho - que se envergou, em resposta ao sobrepeso, mas que não se rompeu. As dores pulsantes vinham cada vez mais fortes. Suava frio. Rezou. Torceu-se. Contorceu-se. Tanta era a dor que jura ter visto o Cão chupando manga no alto da goiabeira. Não suportou, por fim. De lá, despejou aquilo que lhe servira de mantimento outrora.
Todavia, nem tudo são flores. Alívio de um lado, desespero de outro. No exato momento em que a matéria fecal liquefeita obedecia aos desígnios da lei da gravidade, passava o clérigo Timóteo Avelino, portando sua recente tonsura.
Todo lambuzado, Timóteo, furibundo, perguntou, aos berros, quem estava no alto do pé de goiaba.
Um arrulhar desafinado ouviu-se. Clarisvalda tentava imitar um pombo. Não foi convincente.
Timóteo tornou a perguntar, já com ameaças, quem estava no alto da goiabeira.
Uma voz estilizada de criança foi, então, ouvida:
- É o bichinho da goiaba! Comi uma goiaba podre que me deu dor de barriga! - disse-lhe Clarisvalda.
Vendo que com enganos lhe era assim negada a verdade, Timóteo sacou um revólver e deu um tiro para o alto. Não atingiu ninguém.
Com o susto, Clarisvalda despencou da goiabeira. No chão, com as calçolas nos tornozelos e as saias amarradas acima do umbigo, ficou com as vergonhas ao vento.
Desde então, Clarisvalda, por força do ocorrido, virou “bichinho da goiaba podre”. Tentou continuar nas pregações. Não foi possível.
Depois que Felisberto Cupertino me narrou este acontecido, quem me conhece sabe que uma cautela carrego comigo: não passo debaixo de árvore sem antes averiguar se há ou não um esfíncter anal pronto para atacar!



CRÔNICAS - Herbert Haeckel

Tal como uma luva
(Herbert Haeckel)

Costuma-se a associar o nome de algo ou uma característica às pessoas que se conhece. É quase instantâneo e natural. Talvez, seja uma forma mnemônica, para não olvidar o nome de alguém. Quão constrangedor é esquecer o nome de alguém!
Certa feita, vou-vos contar, encontrei-me com uma colega dos tempos primevos de escola. Ela lembrou-se de meu nome. E eu, do nome dela, não. No auge da palestra, ela perguntou-me, desconfiada, se eu me lembrava de seu nome. Disse-lhe que sim, a mentir. Perguntou-me qual era. Respondi-lhe, de chofre: não sei! Que vergonha...
Hoje, sempre que necessário, faço a aludida associação, para não ser, novamente, traído pelo olvido.
Alsuc Aranjuez possuía hábitos diferentes. Não era adepto das leituras. Logo cedo, conseguiu criar um subterfúgio para não frequentar a escola - introduzia um dente de alho entre uma nádega e outra, e ardia em febre; conclusão a que chegaram seus pais: a escola poderia ser mortal para Alsuc. Tiraram-no, pois, da escola.
Foi crescendo, acostumando-se a ter tudo nas mãos, sem esforço qualquer. Se se via contrariado, apelava para o alho! E haja antipirético!
Confidenciou-me Antero Farabeuf, esculápio que acompanhou o caso de Alsuc, ser um mistério para a medicina. Nada lhe disse. Ri.
Chegada a hora de começar a trabalhar, empregou-se na mercearia de Castorino Flores. Quando não estava com febre, passava quase que o dia todo deitado por sobre sacos de farinha. Castorino despediu-o no segundo mês. Durou até muito tempo!
Com muita luta - dos pais, obviamente - conseguiu Alsuc outro emprego: na farmácia de Ana Tolentino. Não passou de uma semana! Foi colocado para fora.
Havia uma coisa que Alsuc fazia muito bem, além de dormir: comer.
Ganhou peso. O joelho valgo evidenciou-se. Vivia a queixar-se das assaduras na região pudenda.
Para a sociedade, era imperativo transparecer que era um ser humano normal, trabalhador. Sem ter onde mais trabalhar, Alsuc teve a ideia de assessorar sua mãe, nas tarefas de casa, recebendo, para tanto, um salário capaz de cobrir suas despesas - como vos falei, era um legítimo glutão! Amava as guloseimas!
Um trabalho, digamos, não muito extenuante: acender os queimadores do fogão. Era-lhe, por sinal, agradável função, haja vista a piromania herdada da mãe.
Pois bem, amigos, como vos falei alhures, passei a associar, sempre que possível, algum atributo a certas pessoas... E toda a vez que ouço a palavra “inútil” lembro-me, instantaneamente, de Alsuc Aranjuez.
Cabe-lhe como uma luva!



CRÔNICAS - Herbert Haeckel

Santa inocência
(Herbert Haeckel)

Há quem diga que não existem coincidências. Eu creio nelas piamente. 
Não gosto de misticismo. Nem de mitos!
Porém, estou convencido de que quando a fé não remove montanhas ela abre um túnel que as atravessa.
Acabei de almoçar e recebi a ligação de Judas Hermengardo.
Pensei nele dias atrás. Daí, a coincidência.
Conversa vai, conversa vem, e eu a impacientar-me com Hermengardo. Prezo muito o meu tempo. Quem me conhece sabe que não sou devotado a ficar mais do que dois minutos numa ligação telefônica. Telefone, entendo eu, é para um recado brevíssimo. Quereis conversar? Marcai um encontro!
Já estourado o meu tempo limite e iniciada a dormência no pavilhão auricular, perguntei-lhe o porquê da ligação.
- Eu cometi uma injustiça com a minha mulher - disse-me ele.
Nestas horas, por mais cauteloso e otimista que alguém possa ser, somente as desgraças é que vêm ao pensamento!
- Não me diga que vosmecê atentou contra a integridade física dela...
- Não! Jamais! Minha mulher é tudo para mim - falou-me, com uma certa candura, que até me comoveu...
Foi quando, admito, uma lágrima rolou-me à face. Quem não ficaria emocionado com tão singular declaração?
- Eu desconfiei que o meu filho não era meu filho. Pedi um exame de DNA.
Neste momento, confesso que gelei! Não, não, meus diletos leitores, não é o que vós estais a pensar! A minha reação foi em decorrência do que Calixto Fagundes soltou, no pileque que tomou na casa de Altino Belmonte, há uns dois anos.
Hermengardo mostrou-se profundamente amargurado por, segundo ele, ter duvidado, apesar de tudo, da esposa. Deu-me detalhes acerca do exame, após eu acionar o alto-falante do telemóvel para ouvir a conversa à distância.
Em resumo: no dia do exame, a mulher de Hermengardo sugeriu que seu primo, Calixto Fagundes, doasse o material para exame, uma vez que Hermengardo tinha um verdadeiro e incontrolável pavor por agulhas e assemelhados.
Hermengardo concordou, feliz, assim me disse ele, pela preocupação e zelo com que sua devotada e doutrinada esposa o tratava...
Assim que saiu o resultado, Hermengardo ligou-me. Pediu-me conselho, orientação para lidar com a situação.
- O filho é meu! Deu positivo! Como pude desconfiar dela? - disse-me Hermengardo, numa mistura de euforia e de preocupação.
Fiquei sem saber o que dizer.
Em seguida, falei-lhe que deveria pedir desculpas a ela - não lhe disse que o motivo das desculpas era por ser tão estulto!
Era o mínimo que eu poderia fazer.
E assim como Judas Hermengardo acredita que o filho é seu, há muitos descurados que ainda acreditam na honestidade do capitão...
E viva a santa inocência!



CRÔNICAS - Herbert Haeckel

De pai para filho
(Herbert Haeckel)

Depois de flagrar sua doutrinada esposa com outro no sofá da sala, Judas Hermengardo tomou duas providências, que, sob a sua caolha ótica, eram imperativas para, não sei bem se o termo correto seria este, evitar uma nova traição da estimada consorte: lançou o sofá no meio da rua, ateando-lhe fogo, e comprou um par de luvas de boxe - não, amigos leitores, não tinham as luvas por escopo serem utilizadas para bater na mulher, mas para evitar uma fratura na mão, acaso houvesse necessidade de esmurrar a parede, como de cotio!
Ah! Vede só como são as coisas: ia-me esquecendo de dizer, o mais importante quiçá, que Judas Hermengardo matriculou sua esposa num curso de corte e costura, no Centro de Educação para o Lar Helenita Serrão Madureira! Aulas noturnas. Eram mais em conta! Dar-lhe uma ocupação, para que, quem sabe, ela se esquecesse de pular o cercado.
Alguns meses depois, uns três, quero crer, Hermengardo liga-me, dizendo necessitar de um obséquio. Fui ao seu encontro.
Pediu-me que fosse à escola para verificar a frequência da esposa, uma vez que lhe foram mexericar que ela chegava a casa, à noite, depois da aula de corte e costura, todos os dias, em companhia de um homem, que a deixava na esquina, a uns cinquenta metros de sua porta.
Fui. Com ele ao lado.
Ao entregar-nos a lista de presença, a responsável pela escola disse-nos que nunca havia visto a esposa de Hermengardo. Nem poderia ter visto. Nunca foi às aulas...
Notei um certo desconforto em Judas Hermengardo.
- Ela não gosta de corte e costura. Eu deveria tê-la matriculado no curso de bordados! Ou de pintura! - disse ele, num indisfarçável constrangimento, muito embora eu acredite que de pintura aulas ela não necessite: já é experta em pintar o sete!
Em seguida, completou, sem que nada lhe houvesse sido perguntado:
- Minha avó Matilde traiu meu avô Jeremias... Ele é chifrudo igual ao meu pai.
Compreendi a situação como um atípico caso de hereditariedade - uma linhagem dessas não se vê a todo o instante... É um caso digno de estudo!
Compreendi também que o cerne do problema não é ser corno: é ser corno sozinho!



quinta-feira, 29 de novembro de 2018

REFLEXÕES - Herbert Haeckel 

E a vida é assim, cheia de caminhos, cheia de contradições, cheia de alternâncias. 
Para um anoitecer há um amanhecer. 
Para uma tristeza, uma alegria. 
Para uma despedida, um reencontro. 
Para um fim, um recomeço. 
Para as incertezas, a certeza de que tudo passa, tudo é transitório. 
Até mesmo o sofrimento, até mesmo a dor, que insistem em dizer que estarão conosco para sempre, são efêmeros, como esta existência aqui é. 
Um passo à frente é o que nos afasta da angústia da separação e nos aproxima do tão esperado reencontro. 
Caminhemos!



sábado, 24 de novembro de 2018


CRÔNICAS - Herbert Haeckel

Salve-se quem puder
(Herbert Haeckel)


Astromílio Ladeira foi quem me narrou este caso, quando de minha visita a Maniçobal. Quis vê-lo novamente. Não pude. Hoje, somente seus ossos e cabelos persistem na existência material. Merecido descanso!
Trinta anos durante, empregou em seu comércio de secos e molhados o grego Nikoláos Chronopoulos, que fugira de Peristeri, alguns anos depois de ter-se emancipado de Atenas.
Não sei o motivo de sua vinda para o Brasil. Mas, veio, como se diz aqui e acolá, com uma mão na frente e outra atrás. Veio com ideias diferentes. Vestia-se com camisas negras e punha o membro superior direito em extensão, levemente erguido um pouco acima da cabeça. Casou-se. Constituiu família. Teve dois filhos.
Os negócios de Astromílio iam bem. Muito bem. A cidade crescia. Descobriram-se ouro e cobre. Veio o progresso. Com ele, veio também a necessidade de adequar o seu promissor negócio aos ventos do desenvolvimento. Pensou em contratar mais gentes. Contratou-as. Cogitou em abrir sua primeira filial em Senhor dos Passos. Abriu-a.
A situação reclamava alguém que pudesse tocar o novel negócio e que fosse de sua integral confiança.
Nikoláos recomendou-lhe o filho, Andros Chronopoulos - que chegara recentemente da Capital, onde aprendera a administrar o negócio alheio - para cuidar do estabelecimento a ser inaugurado em Senhor dos Passos. Astromílio gostou da ideia e adotou-a. Confiou em Andros, porque motivos cria não os ter para dele desconfiar.
Andros, que também gostava de camisas negras, vivia a arrotar honestidade. Tirando-o, o que sobrava – segundo ele - era a choldra. Ninguém se salvava. Não cansava de repetir: “ladrões incorrigíveis todos!”...
Encontraram depois, além do ouro e cobre, pedras preciosas. Mais riquezas e progresso para Maniçobal. Mais pessoas vinham de fora e a cidade crescia, fazendo crescer também o comércio local... Senhor dos Passos seguia o mesmo caminho de prosperidade.
Todavia, os negócios de Astromílio começavam de padecer. Exaustavam-se irremediavelmente, sem aparente explicação. Os livros contábeis apontavam um crescente endividamento. Mas, as lenitivas palavras de Andros, a sugerir uma crise passageira e a fé em dias melhores, num malabarismo singular, embotavam a visão de Astromílio.
Sem que pudesse fazer qualquer coisa para evitar, Astromílio foi à falência. Os credores caíram sobre os bens da massa falida como esfaimados abutres na carcaça putrefata, nada lhe restando ao final do processo falimentar. Ficou a dever ainda, é bem verdade...
Conheci-o quando seu corpo já definhava e quase não possuía forças para continuar na mendicância.
Andros, que de aparente ladrão não tinha nada, possuía oculto e execrando vício. Acumulou riqueza ladroando desde o primeiro dia até estiomenar o último centavo de Astromílio Ladeira.
Hoje, tem seu próprio negócio, construído a expensas do suor alheio.
Vi Andros Chronopoulos, o atacadista, há poucos dias num botequim.
De barbas brancas, a ostentar ouro no punho e no pescoço, aproveitou a distração do casal da mesa ao lado e, repetindo um antigo e inabdicável hábito, subtraiu-lhe um acepipe, dizendo, sem tardança e em tom profético:
- Esta abominável ladroagem vai ter fim em primeiro de janeiro!
Salve-se quem puder...

Pensamentos...



«Mesmo a mulher mais sincera esconde algum segredo no fundo do seu coração.» (Kant)

«Assim como se diz que a hipocrisia é o maior elogio da virtude, a arte de mentir é o mais forte reconhecimento da força da verdade.» (William Hazlitt)

«Conhecer a verdade não é o mesmo que amá-la e amar a verdade não equivale a deleitar-se com ela.» (Confúcio)

«A água corre tranqüila quando o rio é fundo.» (William Shakespeare)

«O repouso é bom, mas o tédio é irmão do repouso.» (Voltaire)

«Você será avarento se conviver com homens mesquinhos e avarentos. Será vaidoso se conviver com homens arrogantes. Jamais se livrará da crueldade se compartilhar sua casa com um torturador. Alimentará sua luxúria confraternizando-se com os adúlteros. Se quer livrar-se de seus vícios, mantenha-se afastado do exemplo dos viciados.» (Sêneca)

«É extremamente fácil enganar a si mesmo, pois o homem geralmente acredita no que deseja» (Demóstenes)

«Precisamos parecer um pouco com os outros para compreender os outros, mas precisamos ser um pouco diferentes para amá-los.» (Paul Géraldy)

«O que sabemos é uma gota e o que ignoramos é um oceano.» (Isaac Newton)

«Na atual sociedade, em que os valores estão invertidos, o dinheiro é capaz de comprar tudo, inclusive a verdade, a amizade e o amor. Mas, findo o dinheiro, esgotam-se, também, e ao mesmo tempo, as verdades, as amizades e os amores por ele comprados.» (Herbert Haeckel)

Curiosidades

Calcula-se que há 100 milhões de insetos para cada ser humano.

A maior borboleta do mundo é a Queen Alexandra Birdwing, encontrada numa pequena área da floresta tropical no norte da Papua Nova Guiné. A fêmea, que é maior que o macho, pode chegar a 31 cm de envergadura e ter massa de até 12kg. Está ameaçada de extinção, em razão da destruição de seu habitat natural.

O órgão sexual da aranha macha está localizado no final de uma de suas patas.

As abelhas possuem cinco olhos; três pequenos no topo da cabeça e os dois maiores na frente.

Alguns insetos conseguem viver até um ano sem a cabeça.

Uma barata pode viver até 6 dias sem a cabeça; acaba morrendo de fome, porque não tem como se alimentar.

As formigas comunicam-se por meio do olfato.

Mosquitos são atraídos duas vezes mais pela cor azul do que por qualquer outra cor.

O inseto com o maior cérebro em relação ao tamanho do corpo é a formiga.

Os mosquitos fêmeos chupam o sangue, porque necessitam das proteínas para desenvolver os ovos que carregam.

Uma asa de mosquito move-se mil vezes a cada segundo.

As moscas domésticas vivem apenas 2 semanas.

Os mosquitos causaram mais mortes do que todas as guerras juntas.

A luz dos vaga-lumes é produzida pela oxidação de uma substância química chamada luciferina na presença de uma enzima chamada luciferase, de ATP (fonte de energia) e de magnésio. A cor e o ritmo da luz variam de acordo com a espécie. O animal pode controlar a produção, a duração e a intermitência (quantas vezes acende e apaga) da luz. A luminescência é um aviso aos inimigos para que se afastem. Nos adultos, também tem a função de atrair a fêmea para o acasalamento.