sexta-feira, 10 de julho de 2009

Carminis III - Herbert Haeckel

Carminis III
(Herbert Haeckel)

Diva de resplandor imensurável,
Que entre tantas no páramo de estrelas,
De tal encanto assim, inexorável,
És de todas a mais bela entre as belas!

Fulguras, Deusa amada, mui inefável,
Uma luminescência, que destrelas
O firmamento até inabalável,
Brilhando tu somente em lugar delas!

Quando perto de ti, morrem de inveja
Estrelas que povoam o celeste
Azul; uma a uma ao te mirar raiveja...

Conspicuamente, amar-te é uma dádiva.
E ao ouvires suplicar-te, maisquiseste
A mim que outros: enlevas-me alta Diva!

Carminis II - Herbert Haeckel


Carminis II
(Herbert Haeckel)


Que é o amor, senão, um espinho em flor?
Verbera, reverbera e que atormenta...
Lúgubre encantamento, fluido alor,
Que queima todo o corpo e a alma alimenta.


Que é o amor, senão, um pleno torpor?
Que, no mar da existência, é tormenta
E que impõe a quem ama um torvo algor,
A confranger crepuscular juventa...


É como ver, sem com os olhos ter,
A recôndita essência, cerne da alma...
Depérdito em quimera o coração,


Amante, foge, e assim supõe conter,
Presto, fugaz ímpeto e não se acalma,
Porque o amor, que tem, é imolação!


Carminis - Herbert Haeckel


Carminis
(Herbert Haeckel)



Da pétala orvalhada, escapa o fino olor
Deleitoso do amor que raia e já aflora...
Ouço o mágico som, vivo, de multicor,
Que sai de tua boca em determinada hora...

Sinto-me mais completo e forte no calor,
Calor que emana do teu abraço e que me alvora,
E irradia-me o ser de intenso e largo amor,
A tomar da paixão o lugar em que mora...

Dos beijos teus, retiro o ar que tanto respiro,
Beijo que inflama, queima, e que a viver me inspiro...
E ao amar-te,  mitigar o sofrer cruel vou,

E nos teus braços, hei de consolar-me à noite,
E a solidão delir - ah! este bárbaro açoite! -
Bem sabes tu, mulher, que sem ti nada sou!


 

1892 III... - Herbert Haeckel


1892 III...
(Herbert Haeckel)


- Cala-te! De onde vens, mal sucedido
Aborto, de imoral ventre nascido?
Se és infeliz, pelo amor ter perdido,
Culpa-te pelo mal então crescido...

De cotio ofenderes... E escondido
O nome, semeias ódio parecido
Ao que quando de a ti foi concedido
Vires ao mundo, ser imerecido!

Se a alguém resta 'inda só uma esperança
De ver-te em informal maternidade
Arrependida: malograda a fé!

Pois que te faltas é a temperança!
Pena causa-me a tua veleidade,
Um vaticínio de desdita até!


 

1892 II... - Herbert Haeckel

1892 II...
(Herbert Haeckel)

Na félea cólera do teu ser vil,
Nutre-se a mais repulsiva afeção.
De hábitos de cariz, pois, incivil,
Tu és uma emblemática abjeção!

Da putréia não te eximes, teu covil,
Que, amando-a, tem-la por predileção,
Se queres algo, fazes-te servil,
A buscares sem paga a repleção!

E quando tu tão logo assim puderes
Pisar naquele que a mão te ofertou,
Lépida o fazes, e com bel-prazer!

Ouve, então: se ainda teus rancores deres,
Terás a destra forte que matou,
Um a um, os vis anseios de maldizer!

1892... - Herbert Haeckel

1892...
(Herbert Haeckel)

Despe-te das tuas imundas vestes,
Que a mentira, esta indômita senhora,
O teu escudo imane - e não contestes! -
Cobriu, com manto, tua alma, que aflora

Mesquinhez, sordidez, pequenez... Estes
Atributos, que cabem em ti agora,
São vaticínio de que estás já prestes
A sucumbir ao inferno, sem demora...

E das trevas que tu semeias se faça
Profecia do termo de teu ser,
De aziaga vilanagem como fulcro...

Não te apresses: certa é tua desgraça!
E daqueles que, de ti, algum sofrer
Tiveram, o escarrar em teu sepulcro!

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Antoine de Saint-Exupéry

ANTOINE-JEAN-BAPTISTE-MARIE-ROGER FOSCOLOMBE DE SAINT-EXUPÉRY. Escritor, ilustrador e piloto de aviões durante a Segunda Guerra Mundial. Nasceu em Lyon, França, em 29 de junho de 1900; faleceu em 31 de julho de 1944, no Mediterrâneo. Suas obras caracterizam-se por elementos como a guerra e a aviação. Em destaque, está o romance O Pequeno Príncipe (Le Petit Prince), escrito durante o exílio nos Estados Unidos, quando teria feito visitas ao Recife, PE, e publicado em 1943.
Exupéry faleceu em sua última missão, em 1944, e seu corpo jamais foi encontrado. Somente em 2000, é que os destroços de seu avião foram encontrados. Antes, em 1998, acidentalmente, fora encontrada, na rede de um pescador, na mesma região em que o avião de Exupéry caiu, a pulseira, que usava no dia em que morreu, com as inscrições «SAINT-EX» e «CONSUELO», nome de sua mulher.


O Pequeno Príncipe
(excerto)

Mas aconteceu que o principezinho, tendo andado muito tempo pelas areias, pelas rochas e pela neve, descobriu, enfim, uma estrada. E as estradas vão todas na direção dos homens.
- Bom dia, disse ele.
Era um jardim cheio de rosas.
- Bom dia, disseram as rosas.
O principezinho contemplou-as. Eram todas iguais à sua flor.
- Quem sois? perguntou ele estupefato.
- Somos rosas, disseram as rosas.
- Ah! exclamou o principezinho. .
E ele sentiu-se extremamente infeliz. Sua flor lhe havia contado que ela era a única de sua espécie em todo o universo. E eis que havia cinco mil, igualzinhas, num só jardim !
«Ela haveria de ficar bem vermelha, pensou ele, se visse isto... Começaria a tossir, fingiria morrer, para escapar do ridículo. E eu então teria que fingir que cuidava dela; porque se não, só para me humilhar, ela era bem capaz de morrer de verdade. . . »
Depois, refletiu ainda: «Eu me julgava rico de uma flor sem igual, e é apenas uma rosa comum que eu possuo. Uma rosa e três vulcões que me dão pelo joelho, um dos quais extinto para sempre. Isso não faz de mim um príncipe muito grande. . .» E, deitado na relva, ele chorou.
E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa,
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste.
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer «cativar»?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens, disse o principezinho - Que quer dizer «cativar»?
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que eles fazem - Tu procuras galinhas?
- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer «cativar»?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa «criar laços».
- Criar laços?
Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
Começo a compreender, disse o principezinho.
Existe uma flor. . . eu creio que ela me cativou ...
É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra ...
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom ! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.
Mas a raposa voltou à sua idéia.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.
O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo?
Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste, Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo ...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, sentar-te-ás mais perto ...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração ... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso!
Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias !
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah ! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse ...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar ! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada !
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para dizer-me adeus, e eu te farei presente de um segredo.
Foi o principezinho rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo.
Ela é agora única no mundo.
E as rosas estavam desapontadas.
- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.
E voltou, então, à raposa:
- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de lembrar-se.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de lembrar-se.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de lembrar-se.

domingo, 5 de julho de 2009

Ruy Guerra


RUY ALEXANDRE GUERRA COELHO PEREIRA. Cineasta, produtor, ator e teatrólogo moçambicano. Nasceu em Lourenço Marques (atual Maputo), Moçambique, em 22 de agosto de 1931. Radicado no Brasil desde 1958.


Soneto

O Meu coração tem um sereno jeito,
E as minhas mãos, um golpe duro e presto,
De tal maneira que, depois de feito,

Desencontrado, eu mesmo me contesto...


Se trago as mãos distantes do meu peito,

É que há distância entre intenção e gesto;

E se meu coração nas mãos estreito,
Assombra-me a súbita impressão de incesto...

Quando me encontro no calor da luta,

Ostento a aguda empunhadura à proa,

Mas o meu peito se desabotoa...


E se a sentença se anuncia bruta,

Mais que depressa a mão, cega, a executa

Pois que, senão, o coração perdoa... 


terça-feira, 30 de junho de 2009

Eça de Queiroz

JOSÉ MARIA DE EÇA DE QUEIROZ. Escritor romantista/realista português. Nasceu em Póvoa de Varzim, em 25 de novembro de 1845; faleceu em Paris, em 16 de agosto de 1900. Autor de vários romances, os de maior destaque são «Os Maias» e «O Crime do Padre Amaro», considerado, este último, como o melhor romance realista português do século XIX.

O Primo Basílio
(excerto do Capítulo VI)

«(...) Luísa, na cama, tinha lido, relido o bilhete de Basílio: Não pudera — escrevia ele — estar mais tempo sem lhe dizer que a adorava. Mal dormira! se de manhã muito cedo para lhe jurar que estava louco, e que punha a sua vida aos pés dela. Compusera aquela prosa na véspera, no Grêmio, às três horas, depois de alguns rubbers de uíste, um bife, dois copos de cerveja e uma leitura preguiçosa da ilustração. E terminava, exclamando: — "Que outros desejem a fortuna, a glória as honras, eu desejo-te a ti! Só a ti, minha pomba, porque tu és o único laço que me prende à vida, e se amanhã perdesse o teu amor, juro-te que punha um termo, com uma boa bala, a esta existência inútil!" — Pedira mais cerveja, e levara a carta para a fechar em casa, num envelope com o seu monograma, porque sempre fazia mais efeito.
E Luísa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações! (...)»

Soneto - Gregório de Matos


Soneto
(Gregório de Matos)

Largo em sentir, em respirar sucinto,
Peno e calo, tão fino, e tão atento,
Que fazendo disfarce do tormento,
Mostro que o não padeço e sei que o sinto.

O mal, que fora encubro ou que desminto,
Dentro do coração é que o sustento
Com que, para penar é sentimento;
Para não se entender, é labirinto.

Ninguém sufoca a voz nos seus retiros:
Da tempestade é o estrondo efeito;
Lá tem ecos a Terra, o Mar, suspiros.

Mas oh, do meu segredo alto conceito!
Pois não chegam a vir à boca os tiros
Dos combates que vão dentro do peito.

Soneto 96 (4-10) - Luís de Camões

Soneto 96 (4-10)

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho, logo, mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim como a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia;
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Ruy Barbosa

RUY BARBOSA DE OLIVEIRA. Jurista, político, diplomata, escritor, jornalista, filólogo, tradutor e orador brasileiro. Nasceu em Salvador, BA, em 5 de novembro de 1849; faleceu em Petrópolis, RJ, em 1º de março de 1923. Um dos maiores gênios da humanidade.


Oração aos Moços
(Excerto do discurso escrito em 1920, quando Ruy Barbosa fora escolhido Paraninfo da Turma de Bacharelandos da Faculdade de Direito de São Paulo. O discurso foi lido pelo Professor Reinaldo Porchat, diante da impossibilidade de Ruy Barbosa comparecer à solenidade)

«(...) Não, filhos meus (deixai−me experimentar, uma vez que seja, convosco, este suavíssimo nome); não: o coração não é tão frívolo, tão exterior, tão carnal quanto se cuida. Há, ele, mais que um assombro fisiológico: um prodígio moral. É o órgão da fé, o órgão da esperança, o órgão do ideal. Vê, por isso, com os olhos d’alma, o que não vêem os do corpo. Vê ao longe, vê em ausência, vê no invisível, e até no infinito vê. Onde pára o cérebro de ver, outorgou−lhe o Senhor que ainda veja; e não se sabe até onde. Até onde chegam as vibrações do sentimento, até onde se perdem os surtos da poesia, até onde se somem os vôos da crença: até Deus mesmo, inviso como os panoramas íntimos do coração, mas presente ao céu e à terra, a todos nós presente, enquanto nos palpite, incorrupto, no seio, o músculo da vida e da nobreza e da bondade humana.
Quando ele já não estende o raio visual pelo horizonte do invisível, quando sua visão tem por limite a do nervo óptico, é que o coração, já esclerótico, ou degenerescente, e saturado nos resíduos de uma vida gasta no mal, apenas oscila mecanicamente no interior do arcaboiço, como pêndula de relógio abandonado, que agita, com as derradeiras pancadas, os vermes e a poeira da caixa. Dele se retirou a centelha divina. Até ontem lhe banhava ela de luz todo esse espaço, que nos distanceia do incomensurável desconhecido, e lançava entre este e nós uma ponte de astros. Agora, apagados esses luzeiros, que o inundavam de radiosa claridade, lá se foram, com o extinto cintilar das estrelas, as entreabertas do dia eterno, deixando−nos, tão−somente, entre o longínquo mistério daquele termo e o aniquilamento da nossa miséria desamparada, as trevas de outro éter, como esse que se diz encher de escuridão o vago mistério do espaço. Entre vós, porém, moços, que me estais escutando, ainda brilha em toda a sua rutilância o clarão da lâmpada sagrada, ainda arde em toda a sua energia o centro de calor, a que se aquece a essência d’alma. Vosso coração, pois, ainda estará incontaminado; e Deus assim o preserve.(...)»

Machado de Assis

O maior escritor da humanidade, em todos os tempos: Machado de Assis. Desculpem-me Camões, Cervantes, Alighieri, Shakespeare...
E por falar em Shakespeare, eis parte da tradução do solilóquio básico de Hamlet (de W. Shakespeare), quando o Príncipe da Dinamarca se posta diante de uma escolha.
Machado de Assis foge do pueril «ser ou não ser», e, magistralmente, «receita» como escapar do lugar comum e lançar-se à magnificência da poesia. Isto que é ser escritor!

Hamlet
(William Shakespeare. Excerto do Ato III, Cena I - Tradução de Machado de Assis)

É mais nobre à cerviz curvar aos golpes
Da ultrajosa fortuna, ou já lutando
Extenso mar vencer de acerbos males?
Morrer, dormir, não mais. E um sono apenas.
Que as angústias extingue e à carne a herança.
Da nossa dor eternamente acaba,
Sim, cabe ao homem suspirar por ele.
Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe?...

Alphonsus de Guimaraens


ALPHONSUS HENRIQUE DE GUIMARAENS. Escritor brasileiro, nasceu em Ouro Preto, MG, em 24 de julho de 1870; faleceu em Mariana, MG, em 15 de julho de 1925. Seus sonetos apresentam estrutura clássica, nos quais explorava o sentido da morte, do amor impossível e da solidão. Outra característica de sua obra é a utilização da espiritualidade em relação à figura feminina, que a via como um anjo. Por isso, diz-se que Alphonsus Guimaraens era neo-romântico e simbolista ao mesmo tempo.


Vaga em Redor de Ti...

Vaga em redor de ti uma fulgência,
Que tanto é sombra quanto mais fulgura:
O teu sorriso, que é divino, vence-a,
E ela, que é luz de estrela, pouco dura.

De outra não sei que tenha a etérea essência
Que nos teus olhos brilha: nem a pura
Linha de arte de tal magnificência,
Como a que o rosto de anjo te emoldura.

Na candidez ebúrnea do semblante
Tens um lis de ternura, que desliza
À flor da pele em mágoa suavizante.

Não sei que manto celestial arrastas...
És como a folha do álamo que a brisa
Beija e balança ao luar das noites castas.

Maciel Monteiro


ANTÔNIO PEREGRINO MACIEL MONTEIRO, 2º Barão de Itamaracá. Médico, político, diplomata e poeta brasileiro. Nasceu no Recife, PE, em 30 de abril de 1804; faleceu em Lisboa, Portugal, em 5 de janeiro de 1868.



Soneto

Formosa, qual pincel em tela fina
Debuxar jamais pôde ou nunca ousara;
Formosa, qual jamais desabrochara
Na primavera a rosa purpurina;

Formosa, qual se a própria mão divina
Lhe alhinhara o contorno e a forma rara;
Formosa, qual jamais o céu brilhara
Astro gentil, estrela peregrina;

Formosa, qual se a natureza e a arte,
Dando as mãos em seus dons, em seus lavores,
Jamais soube imitar no todo ou parte;

Mulher celeste, oh! anjo de primores!
Quem pode ver-te, sem querer amar-te?
Quem pode amar-te, sem morrer de amores?!


Mal Secreto - Raimundo Correia

Mal Secreto
(Raimundo Correia)

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N'alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente ri, talvez, consigo,
Guarga um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Peixes, Pássaros, Pessoas - Mariana Aydar

Mariana Aydar - Peixes, Pássaros, Pessoas

1. Florindo
2. Palavras não falam
3. Beleza (participação especial de Mayra Andrade)
4. Aqui em casa
5. Pras bandas de lá
6. Manhã azul
7. Tá
8. Peixes
9. Nada disso é pra você
10. Poderoso rei
11. O samba me persegue (participação especial de Zeca Pagodinho)
12. Teu amor é falso
13. Tudo que eu trago no bolso




Este Blog possui estritamente caráter cultural. Nosso propósito é, tão-somente, divulgar a cultura. Aqui não se hospedam arquivos de música ou quaisquer outros, e os links têm prazo de validade limitado.
Ao baixar arquivos, apague-os no prazo de 24h. Acaso goste do que ouviu, adquira o álbum em lojas especializadas.

Vicente de Carvalho

VICENTE AUGUSTO DE CARVALHO. Poeta parnasiano brasileiro, contista, Advogado, jornalista, político e magistrado. Nasceu em Santos, SP, em 5 de abril de 1866; faleceu em São Paulo, SP, em 22 de abril de 1924. Seu grande tema era o mar, o que lhe rendeu a alcunha «Poeta do Mar».


Velho Tema

Só a leve esperança, em toda a vida,
disfarça a pena de viver, mais nada;
nem é mais a existência, resumida,
que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
sonho que a traz ansiosa e embevecida,
é uma hora feliz, sempre adiada,
e que não chega nunca em toda vida.

Essa felicidade que supomos,
árvore milagrosa que sonhamos
toda arreada de dourados pomos,

existe, sim; mas nós não a alcançamos,
porque está sempre apenas onde a pomos,
e nunca a pomos onde nós estamos.

Alberto de Oliveira



ANTÔNIO MARIANO ALBERTO DE OLIVEIRA. Poeta parnasiano brasileiro, professor, farmacêutico. Nasceu em Palmital de Saquarema, RJ, em 28 de abril de 1857; faleceu em Niterói, RJ, em 19 de janeiro de 1937. Foi Membro Honorário da Academia de Ciências de Lisboa e um dos fundadores, a convite de Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras em 1897, ocupando a Cadeira nº 8, cujo Patrono, escolhido pelo ocupante, é Cláudio Manuel da Costa.


Horas Mortas

Breve momento, após comprido dia

De incômodos, de penas, de cansaço,

Inda o corpo a sentir quebrado e lasso,

Posso a ti me entregar, doce Poesia!


Desta janela aberta à luz tardia

Do luar em cheio a clarear o espaço,

Vejo-te vir, ouço o leve passo

Na transparência azul da noite fria.

Chegas. O ósculo teu me vivifica.

Mas é tão tarde! Rápido flutuas,

Tornando logo à etérea imensidade;


E na mesa a que escrevo apenas fica.

Sobre o papel - rastro das asas tuas -
Um verso, um pensamento, uma saudade.

Língua Portuguesa - Olavo Bilac

Língua Portuguesa
(Olavo Bilac)


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: «Meu filho!»,
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


Pensamentos...



«Mesmo a mulher mais sincera esconde algum segredo no fundo do seu coração.» (Kant)

«Assim como se diz que a hipocrisia é o maior elogio da virtude, a arte de mentir é o mais forte reconhecimento da força da verdade.» (William Hazlitt)

«Conhecer a verdade não é o mesmo que amá-la e amar a verdade não equivale a deleitar-se com ela.» (Confúcio)

«A água corre tranqüila quando o rio é fundo.» (William Shakespeare)

«O repouso é bom, mas o tédio é irmão do repouso.» (Voltaire)

«Você será avarento se conviver com homens mesquinhos e avarentos. Será vaidoso se conviver com homens arrogantes. Jamais se livrará da crueldade se compartilhar sua casa com um torturador. Alimentará sua luxúria confraternizando-se com os adúlteros. Se quer livrar-se de seus vícios, mantenha-se afastado do exemplo dos viciados.» (Sêneca)

«É extremamente fácil enganar a si mesmo, pois o homem geralmente acredita no que deseja» (Demóstenes)

«Precisamos parecer um pouco com os outros para compreender os outros, mas precisamos ser um pouco diferentes para amá-los.» (Paul Géraldy)

«O que sabemos é uma gota e o que ignoramos é um oceano.» (Isaac Newton)

«Na atual sociedade, em que os valores estão invertidos, o dinheiro é capaz de comprar tudo, inclusive a verdade, a amizade e o amor. Mas, findo o dinheiro, esgotam-se, também, e ao mesmo tempo, as verdades, as amizades e os amores por ele comprados.» (Herbert Haeckel)

Curiosidades

Calcula-se que há 100 milhões de insetos para cada ser humano.

A maior borboleta do mundo é a Queen Alexandra Birdwing, encontrada numa pequena área da floresta tropical no norte da Papua Nova Guiné. A fêmea, que é maior que o macho, pode chegar a 31 cm de envergadura e ter massa de até 12kg. Está ameaçada de extinção, em razão da destruição de seu habitat natural.

O órgão sexual da aranha macha está localizado no final de uma de suas patas.

As abelhas possuem cinco olhos; três pequenos no topo da cabeça e os dois maiores na frente.

Alguns insetos conseguem viver até um ano sem a cabeça.

Uma barata pode viver até 6 dias sem a cabeça; acaba morrendo de fome, porque não tem como se alimentar.

As formigas comunicam-se por meio do olfato.

Mosquitos são atraídos duas vezes mais pela cor azul do que por qualquer outra cor.

O inseto com o maior cérebro em relação ao tamanho do corpo é a formiga.

Os mosquitos fêmeos chupam o sangue, porque necessitam das proteínas para desenvolver os ovos que carregam.

Uma asa de mosquito move-se mil vezes a cada segundo.

As moscas domésticas vivem apenas 2 semanas.

Os mosquitos causaram mais mortes do que todas as guerras juntas.

A luz dos vaga-lumes é produzida pela oxidação de uma substância química chamada luciferina na presença de uma enzima chamada luciferase, de ATP (fonte de energia) e de magnésio. A cor e o ritmo da luz variam de acordo com a espécie. O animal pode controlar a produção, a duração e a intermitência (quantas vezes acende e apaga) da luz. A luminescência é um aviso aos inimigos para que se afastem. Nos adultos, também tem a função de atrair a fêmea para o acasalamento.